Como o rio Sever formava grossos
caudais durante o Inverno, os habitantes da Portagem
pensaram em construir uma ponte, por onde pudessem
passar a salvo todo o ano.
Reuniram-se então para a projectar e para
recolher dinheiro para a sua construção.
Nessa assembleia apareceu um cavaleiro desconhecido,
que, pelo vestuário, parecia ser pessoa
de muitas posses e que se ofereceu para fazer a
ponte às suas custas, pedindo em troca a
entrega a D. Belzebuth das almas de toda a população.
Antes de responderem os moradores pediram para
conferenciar a sós. Volvidos à reunião,
acordaram com Satanaz que lhe entregavam as almas
se ele construísse a ponte ao longo de uma
noite, ou seja, desde o pôr ao nascer do
sol. Satanaz aceitou o desafio e, esfregando as
mãos de contente, chamou a si todos os seus
homens para carregarem para o local destinado,
uma a uma, todas as pedras necessárias para
a construção da ponte. Durante toda
a noite Satanaz trabalhou, mas ao nascer do sol
faltava uma pedra. O sol já ia alto e à ponte
ainda faltava uma pedra para ficar concluída.
A esperteza dos habitantes tinha-lhes, assim, salvo
a alma e conseguido obter, sem esforço,
uma ponte, à custa apenas de esconderem
de Satanaz uma pequena pedra que faltava para acabar
a obra. Satanaz, vendo-se enganado, anteviu uma
desgraça para quem lá colocasse a
pedra em falta.
Os anos e os séculos passaram e à ponte
sempre faltou a lendária pedra. Já no
nosso século, um habitante da Portagem colocou
a pedra que faltava. Passado pouco tempo, não
se sabe se por ironia do destino, se devido à maldição
de Satanaz, este rapaz veio a sofrer um acidente
de automóvel, ficando assim paralítico.
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