O dia da matança
era e continua a ser para quase todas as
pessoas um dia importante e, por vezes, para
o almoço desse dia, além de
familiares, convidavam-se também outras
pessoas consideradas de importância
para os donos da casa. Para a matança é sempre
necessária ajuda: aos homens cabe
ir buscar o porco e segurá-lo para
o matar; às mulheres cabe fazer a
comida nesses dias, lavar as tripas e fazer
todo o trabalho dos enchidos.
Tudo começa logo cedo e com grande
azáfama. Logo pela manhã vai-se
buscar o animal à pocilga, que nem sempre é junto
das casas, principalmente no centro das aldeias.
Trazido o porco para junto da casa, é agarrado
por alguns homens e posto em cima da banca
(mesa de madeira quase sempre feita exclusivamente
para este efeito). Depois de bem seguro pelas
patas, o “matador” (homem experiente
nestas lides que faz este tipo de trabalho
para diversas pessoas na terra) mata o animal,
espetando a faca de matar (com corte dos dois
lados) no sítio certo para que o porco
pudesse sangrar bem. Esse sangue é aparado
por uma mulher para um alguidar de barro, juntando-se-lhe
uma mão cheia de sal e mexendo-se sempre
até arrefecer para não coalhar
e é o sangue usado para a feitura das
morcelas.
De seguida o porco é chamuscado para
que fique com a pele limpa, trabalho este que
antes era feito com carqueija ou giesta e que,
mais recentemente, é realizado com um
maçarico a gás, que permite um
trabalho mais rápido e eficaz. Depois
de bem raspado com as raspadeiras (que antigamente,
por vezes, eram também lâminas
de gadanhas), é lavado com água
abundante e raspado novamente com uma telha,
para ficar bem limpo e está pronto a
pendurar.
Carregado em mãos ou numa padiola, o
porco é transportado para o local da
casa onde vai decorrer o trabalho da matança
e pendurado no chambaril de madeira ou de ferro,
onde se prende o porco pelas patas de trás,
de modo a que a cabeça fique para baixo
e sem chegar ao chão. É então
pesado para ver quantas arrobas tem o animal,
contudo, nunca sem antes se ouvirem os diferentes
palpites dos participantes.
Posteriormente é aberto de alto a baixo
para se retirarem as tripas, que logo de seguida
são separadas pelas mulheres para as
irem lavar. Antigamente procurava-se um ribeiro
para fazer este serviço, pois é necessária água
abundante; actualmente recorre-se à bica
de um tanque ou a uma torneira de boca larga.
No Porto da Espada, a Fonte do Álamo
ainda continua a ser um dos locais escolhidos
para o efeito.