O
culto religioso esteve e está bem
presente nos Portoespadenses.
A primeira igreja tinha a soleira da porta
rasa com um degrau que descia para a igreja. À frente
tinha uma meia-lua em calçada, com pedras
grandes, as ombreiras da porta rectangular
e a soleira eram de cantaria, o chão
era de sobrado, tinha um único altar,
sendo o padroeiro S. Semião, ao qual,
segundo consta, nunca lhe foi feita festa em
homenagem. Pela Quaresma o altar era tapado
com cortinas roxas. Quanto à igreja
e segundo as “Memórias Paroquiais
de 1758” (J.L. Machado e Sérgio
Gorjão – Ibn Maruan, nº 3): “…no
dito monte se acha huma Ermida da qual he orago
[São ] Simião, cuja Imagem está no
meio de um único altar que há na
dita Ermida e do lado do Evangelho a Imagem
de Nossa Senhora da Orada e a do Senhor do
Bom-fim, e ao lado da Epistola a de São
Bento, tem a porta para Sul e junto a ella
hum campanário com huma pequena campa,
tem missa todos os dias de perceito…“.
A igreja estava voltada de frente para a “Rua
do Beco”, a sacristia tinha uma gateira
com um ferro a meio virada para a rua do “Sr.
João Branco”, tinha um suporte
em pedra de sustento à parede.
Foi feita festa com missa e procissão à imagem
de Nossa Senhora da Orada no último
domingo de Agosto.
Em 1836, foi oferecido por José Pedro
Botelheiro, uma imagem de Nossa Senhora das
Dores, à qual o povo, por grande devoção,
passou a fazer festa até aos nossos
dias.
A imagem é de cerejeira, pintada de
verde-esmeralda e dourados, com coroa em prata.
A segunda igreja foi construída
pelo povo em 1933, no lugar do antigo cemitério.
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Tinha
uma escada de três degraus, com uma porta em oval. Ao
lado direito tinha duas janelas estreitas e uma
do esquerdo, todas com grades de ferro. Por cima
da porta tinha uma janela redonda e por cima
desta uma inscrição, onde se lia “Ave
Maria”. À direita a torre com
o sino.
O telhado e o lugar do sino caíram,
tendo sido reparados e colocada por cima da
porta uma
simples cruz de pedra sobre o telhado de duas
abas.
Na rua que dava para o lagar, tinha três
portas de acesso à sacristia e à casa
dos andores. Da parte da frente e ao lado da
porta principal uma pequena porta, onde a Comissão
de Festas guardava os seus pertences e onde
era guardado o esquife.
A igreja possuía um único altar-mor
com três pequenas capelas cavadas na parede,
sobressaindo as junções das mesmas.
Os altares eram ocupados no centro pela imagem
de S. Semião, ladeado pelas imagens, no
lado esquerdo, do Sagrado Coração
de Jesus e S. Miguel e, ao lado direito, pela
Nossa Senhora das Dores, Senhora do Rosário
e Senhora de Lurdes. A Senhora da Orada encontrava-se
na sacristia.
Por baixo da imagem de S. Semião e ladeado
de castiçais havia um crucifixo em talha
dourada.
A imagem de Nossa Senhora de Fátima, por
não ter lugar no altar, estava sobre
uma mesa, ao lado do altar.
A construção de uma nova igreja
era uma obra que se impunha e diversos foram
os eventos que se realizaram para angariar fundos
para a sua construção: festas,
bailes e teatros. Foi possível efectuar
a recolha de alguns versos cantados num desses
teatros:
Aqui vem o grupo todo aprumado
À
boa assistência fica obrigado
Com boa vontade queremos que assim seja
Trabalhai com fé, trabalhai com fé para
a nossa igreja.
Por aqui estamos com alegria a rodos
P’rá dizer a toda a gente
P’ra dizer a toda a gente
Porto da Espada é de nós todos.
A igreja foi-se degradando
e desmoronando, tendo sido deitada abaixo
e construída
a igreja actual no dia da Santíssima
Trindade em 1981; ainda hoje o missal antigo
se encontra aberto nessa página e o
sino tem a data inscrita.
A igreja de Porto
da Espada ainda hoje é chamada de S. Semião,
considerado por muitos como padroeiro esquecido,
por nunca lhe ter sido feita qualquer festa ou
manifestação religiosa.
A imagem que se encontra nesta igreja gerou alguma
controvérsia quanto à sua representação.
Assim e após consulta ao pároco
da freguesia, Cónego Tarcísio,
fica o seu esclarecimento: “É bastante
curiosa a imagem que se encontra na Igreja de
Porto da Espada, a que as pessoas chamam «S.
Semião».
Trata-se de uma imagem em madeira, dum santo
alto, com uma mitra e um báculo. A mitra
começou por ser usada exclusivamente,
pelos papas até ao século VII.
A partir desta data, a mitra foi usada, por privilégio
papal, pelos Bispos e Abades, até que,
a partir do século XII, se tornou uma
insígnia comum, própria dos Bispos
e Abades.
Pela mitra concluímos que este santo seria
Bispo ou Abade. Não era Papa, porque os
Papas, em vez da mitra usam a Tiara (mitra com
3 anéis) e, na história da Igreja
não houve nenhum Papa Semião.
Além da mitra da cabeça, este santo
tem também um báculo na mão
esquerda.
O báculo é uma fusão do
cajado de pastor e a varinha do mestre-escola,
e simboliza o poder de governar ou ensinar.
Como os Bispos têm geralmente o báculo
na mão direita, podemos concluir que este
santo seria um Abade e não um Bispo.
Simão e Semião são a mesma
palavra. A partir destas considerações,
talvez possamos seguir o seguinte raciocínio:
No início do século XII, nasceu
em Inglaterra, São Simão Stock.
Este homem veio a ser carmelita e fundou vários
conventos: fundou o de Cambridge em 1249, o de
Oxford em 1253, outro em Paris em 1259 e ainda
outro em Bolonha, na Itália em 1260. Veio
a falecer em Bordéus. Foi a São
Simão Stock que Nª Senhora encarregou
de instituir o escapulário de Nª Sra.
do Carmo. Por isso, o seu culto e a imposição
do escapulário de Nª Sra. do Carmo
difundiram-se muito, sobretudo a partir do século
XVI.
Ora, em 1578, o Papa Gregório XII elegeu
para Bispo auxiliar de Évora, onde os
carmelitas tinham um grande convento, o carmelita
Frei Amador Arrais e, passados 3 anos, em 1581,
este mesmo Bispo carmelita é nomeado Bispo
da Diocese de Portalegre.
Na qualidade de Bispo e carmelita, é normal
que tenha promovido, na sua Diocese, a devoção
a Nª Sra. do Carmo, através do escapulário,
e, por arrastamento, a devoção
a São Simão (ou Semião)
Stock, o grande arauto desta devoção.
De facto, a devoção a Nª Sra.
do Carmo, ainda hoje se reconhece nesta zona:
há uma imagem na igreja da Beirã e
uma antiga capela em Castelo de Vide, dedicadas
a Nª Sra. do Carmo.
Por tudo isto, sou de opinião que a imagem
que se encontra na igreja do Porto da Espada
se refere a S. Simão ou Semião
Stock.”
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